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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Um Breve Recado

Esse não é um post para contar histórias. O blog tem tido acesso de diversos países e fico muito feliz que toda a minha maluquice não está apenas sendo lida no Brasil, mas em vários países da Europa, Oceania e Ásia, até no Irã tem gente lendo. O interesse do pessoal pela história é legal e me deixa honrado de compartilhar minhas experiências.

Recentemente tenho recebido mensagens de leitores do blog pedindo que eu transforme minha história num livro. Seria interessante fazer isso se soubesse como fazê-lo. Cheguei a ler um pouco sobre o assunto e vi que muitas editoras trabalham com contratos independentes onde o "escritor" tem todo o custo de produção e a editora faz a logística e distribuição dos livros, isso no Brasil e aqui na Polônia. Isso custa um pouco caro dependendo da quantidade e eu não tenho fundos para isso. Portanto, caso você conheça algum empresário no meio literário e ele tenha interesse de publicar esse meu blablabla ficarei grato, mas de forma independente fica difícil. Além do mais, sei que não sou escritor e que o blog tem diversos erros de linguagem, concordância e afins, mas sabendo que até a Geisy Arruda e a Bruna Surfistinha têm livros, eu acho que também sou capaz uehuehuee.

Mais tarde posto o resto da história

Abraço a todos
BR Na Europa!


Ahh eu num gosto muito desse negócio de twitter não, mas quando atualizo o blog tenho postado lá também, então caso tenha interesse: @belinobr e caso queira me contatar para algo use email do blog =)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Em Nome do Vício - Parte 1

A minha volta a Polônia foi tranqüila. Sem transtorno na viagem, sem “russo” sem cerveja, tudo como manda o figurino. Priceless Girl buscou-me pela manhã na estação de trem e fomos para casa dela onde eu ficaria. Coloquei minha tranqueira toda no guarda-roupa, e ficamos conversando para colocar as novidades em dia.

Era estranha a situação, pois parecia que eu havia invadido a vida dela. Como o cara chega assim do nada, toma parte do guarda-roupa e diz que vai ficar até março? Eu era muito cara de pau. Eu não sabia qual seria meu destino após a Polônia, só sei que eu teria que voltar a Praga para embarcar de volta para o Brasil.

Os primeiros dias passavam e a coisa continuava a mesma. Pela manhã ela acordava e ia para o trabalho enquanto eu ficava em casa assistindo TV ou no computador fuçando a internet. Eu não podia sair de casa, porque caso saísse e batesse a porta eu teria que ficar na rua até que ela voltasse, o que poderia demorar um bocado. Priceless Girl tinha um emprego normal em uma companhia finlandesa, e a noite tinha atividades como instrutora de aeróbica em algumas academias. Portanto, ela poderia chegar até mesmo às 10 da noite. Era melhor não sair.

Após dois dias resolvi armar o Xbox e jogar um pouco. Era segunda-feira e não tinha nada para fazer. Ligar a TV e não entender nada do que se falavam não era legal. Era só blábláblá. Tirei o material vicioso da mochila e fui armando-o na sala. A TV que ela tinha era um “pouco” antiga, mas estaria tudo numa boa desde que funcionasse. Como não era esses modelos LCD, LED ou Plasma de hoje em dia sabia que o cabo HDMI não serviria de nada. Foi então que peguei o cabo para colocar na entrada AV. Virei a TV de lado e pimba! Não tinha AV. ¬¬

Era aquela entrada antiga que só se via na Europa. Eu precisava de um adaptador. Na caixa do aparelho sabia que encontraria, mas como levei na mochila, acabei deixando algumas coisas na casa dos Hakkinen, e o adaptador tinha ficado lá junto com a caixa com instruções e tudo mais. Não tinha outra opção, era sair para comprar o tal adaptador. Eu não quis arriscar ficar fora de casa até sabe-se lá que horas. Esperei para contar a minha decepção a Priceless Girl à noite.

Ao chegar em casa tive uma ótima notícia. Ela trazia consigo chaves para mim. Tinha pegado com sua mãe as chaves extras e deixaria comigo para que eu não ficasse preso em casa como um detento em condicional com aqueles rastreadores na perna. Fiquei feliz com a notícia e contei a ela sobre o problema com a TV.

- Você pode ir a uma loja em Manufaktura. Eles têm quase tudo de eletrônicos lá, certamente irá encontrar o que deseja. – disse ela.

Então era isso, durante a manhã eu iria ao centro tentar achar esse tal adaptador. Como estaria sozinho, seria o primeiro desafio lingüístico que teria na cidade de Łódź, e lembrando que tive uma péssima experiência em Katowice, sabia que aquilo não seria nada fácil.

Na manhã seguinte, após a minha namorada sair para o trabalho, resolvi me preparar psicologicamente para ir encarar meu desafio. Eu sabia mais ou menos o caminho a pé para o local. Não tinha o excelente mapa do McDonald’s comigo, teria que me virar. Vesti-me, fiz o sinal da cruz e sai de casa.

Estava frio lá fora, era neve acumulada em todo canto, gelo nas calçadas e um vento que parecia rasgar a pele. Nada disso importava, eu era guerreiro, precisava da droga do adaptador e não iria desistir por causa de um “friozinho bobo”. Saí do bloco onde estava e segui pela rua principal. Eu não tinha calçados para aquele tipo de ambiente. Usava um tênis baixo e marrom, que usara em Salvador para ir à faculdade. Então você imagina a situação, eu tentando andar e a neve que se acumulava e já batia quase no tornozelo, não deixando. Seria um árduo trajeto até o centro.

Andei pela rua principal e cheguei a um cruzamento.

- Hmm, acho que devo seguir adiante. Se não me engano a frente acharei uma pequena passarela que corta trilhos do trem.

Coisa linda é que na Europa você aproxima-se da faixa de segurança e os motoristas param. Param? Sim, eles param, mas não na Polônia. É raro um sacana parar para que você passe. E eu fiquei um bom tempo no cruzamento esperando um filho de Deus parar para que eu pudesse atravessar. E adivinha... Ninguém parou. 
O jeito era meter a cara e rezar para eles ao menos diminuírem a velocidade naquele asfalto escorregadio. Arrisquei-me e deu certo, quando eu estava no meio da faixa vi carros diminuindo a velocidade e parando enquanto eu estava na faixa.

- Hmm, então é assim que funciona aqui.

Saí andando numa boa e continuei seguindo a rua. Andar naquela neve parecia como na arei de praia, acho que por isso esse povo polaco desenvolveu pernas tão fortes. Três meses andando em toda aquela neve não teria como haver outro resultado. Seguia pela calçada, e logo vi a passarela. Subi as escadas e atravessei-a. Cheguei a uma avenida e precisava atravessar. Esperei que o sinal fechasse e atravessei-a. Deveria seguir em frente? Eu não lembrava direito, mas o senso de direção dizia que deveria. Eu saberia que estaria perto quando visse uma bicicleta pintada de branco que pertencia a um rapaz que havia morrido atropelado ali.

Eu continuava a me “arrastar” pela neve tentando ver a tal bicicleta branca. Avistei-a de longe e então percebi que não estava perdido. Estava chegando perto dela quando algo um tanto quanto inusitado ocorreu. Uma pessoa estava tirando a neve da varanda do apartamento e eu não tinha percebido. Ao passar perto recebi uma rajada de gelo na cabeça. Maldição. Acho que eram cerca de 6kg na minha cabeça. Não deu nem tempo de reclamar com o sacana que jogou aquilo em mim, quando olhei para cima não vi mais ninguém. O jeito era limpar-me e continuar o percurso.

Após a bicicleta havia um muro gigante e um clima um tanto quanto sinistro. Acredite, a cidade é bem esquisita quando se vê pela primeira vez e no inverno parecia uma cidade fantasma. O muro pertencia a um cemitério e eu odeio cemitérios. Tudo que mais queria era sair daquela área. O muro parecia não ter fim. Andava o mais rápido possível para passar por aquilo e enfim vi um semáforo adiante. Era o ponto de chegada.

Atravessei o sinal e um estacionamento que vinha logo à frente. Estava num shopping chamado Manufaktura. O que restava era apenas achar a tal loja que Priceless Girl havia indicado.

BR Na Europa!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Corte de cabelo no "Albergue"

A idéia de voltar a Praga era pegar minhas muambas e voltar à Polônia, mas como rolou o lance da União Européia eu pensei que poderia ficar por lá. Logo pela manhã liguei para embaixada para marcar um novo horário com o cônsul. Feito isso a Sra. Hakkinen apareceu avisando que tínhamos um convite para ir numa festa. A namorada de seu filho mais velho estava se formando e seria legal que eu fosse. Topei a parada, mas tinha um pequeno detalhe. Eu precisava cortar a minha juba.

Como Jerry, o mais novo dos Hakkinen, também estava cabeludo, a senhora Hakkinen resolveu levar-nos a sua cabeleireira de confiança. Eu fiquei logo bolado, porque não é qualquer um que sabe cortar cabelo duro. Tá, o meu não é tão duro, mas comparado aos cabelos tchecos o meu era “hardcore”.

- Não tem problema, Belino. Ela tem marido de cabelo diferente também, vai fazer um bom trabalho em sua cabeça. – já viu que esse negócio não iria dar certo, né?

Saímos os três para arrumar as cabeleiras. Seguimos em direção ao centro, e paramos na estação Muzeum, onde trocamos de linha. Paramos umas duas estações antes de onde ficava o maior shopping de Praga. Era um lugar residencial. Eu ainda não tinha passado por ali, mas por algum motivo me lembrava algumas ruas polonesas. Bem estranho mesmo.

Chegamos a um prédio e a Sra. Hakkinen usou o interfone. Jerry e eu estamos com ela, mas sem vontade nenhuma de participar dessa seção de beleza. Era melhor ter ficado em casa jogando Halo, mas como eu precisava apresentar-me bem para a bendita festa, o corte de cabelo era necessário, além do mais, meu cabelo quando grande é algo bem feio.

A porta se abrir diante a nós. Havia um pequeno corredor defronte. Era escuro e nele uma escada. Você já assistiu “O Albergue”? Pois bem, me senti no filme. Era o mesmo clima. Coisa de louco mesmo. O cheiro também era bem estranho. De coisa velha. Jerry pareceu não se importar e passou na frente subindo as escadas. Eu fiquei olhando e hesitando entrar, enquanto a Sra. Hakkinen dizia:

- Vamos, estamos atrasados.

Parece bobagem, mas eu pensei: “Será que agora vão arrancar minhas tripas como no filme só porque não casei com a filha dela?”. Isso ficou só no pensamento e fui subindo calado.  Na escadaria havia algumas janelas de vidro que deixavam a luz entrar, só que ela vinha “cortada” por grades de vidro, o que deixava o ambiente mais sinistro. Chegamos ao último andar e uma porta se abriu.

Uma loira sorriu e começou a conversar com a senhora Hakkinen. Entramos; era uma pequena sala com acessórios de salão de beleza. Consegui respirar tranqüilo assim que tirei aquelas cenas fortes do filme de minha cabeça. Jerry seria o primeiro a cortar a juba e eu iria em seguida. Peguei uma das revistas de fofoca de artistas tchecos pra dar uma olhadinha enquanto esperava.

O corte de Jerry não demorou muito e logo era minha vez. A mulher mandou-me sentar a cadeira. Aconcheguei-me e ela veio com a capa protetora. Foi aí que começou o pepino. Ela perguntou algo sobre o corte e eu lá com minha cara de bunda. A mulher não falava nada em inglês, NADA. Eu sinalizava de um lado, apontava de outro, amassava a cabeleira para mostrar a altura... a coisa estava complicada. Peguei e pedi a Jerry que traduzisse para mim:

- Você é a profissional aqui, faz o que achar que fica bom.

Jerry traduziu a frase e ela falou:

- Dobrý. – ou algo do tipo, já não lembro muito da língua tcheca.

Ela começou o corte. Picota daqui, máquina raspando acolá. Que tristeza, eu olhava o corte sendo feito no espelho e via a cagada sendo feita. Não era nada parecido com o meu corte tradicional. Deixe pra lá. Se ficasse pior que aquilo iria pedir para raspar. Era melhor ficar careca.

O corte foi feito. Eu sinceramente não gostei, ficou bem esquisito. Ainda mais com o penteado que ela me arrumou. Fazer o quê? Ao menos eu sabia que o cabelo cresceria novamente, ainda teria salvação. Talvez com um penteado diferente desse para passar despercebido na festa. Deixa pra lá.

A Sra. Hakkinen iria fazer algo demorado no cabelo e disse para irmos para casa. Falou que pagaria tudo e que eu não me preocupasse. A noite por volta das 10 teríamos a festa para ir. Jerry e eu voltamos para o apartamento para aproveitar o resto da tarde e jogar um pouco de videogame. A noite prometia...

BR Na Europa!

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sábado, 23 de outubro de 2010

Momentach Łódź

Acordei por volta das dez da manhã fui me arrumar. Havia combinado com a Priceless Girl que sairíamos e ela me mostraria um pouco da cidade. Sinceramente eu não estava com muita vontade de ver o “mundo cinza” de Łódź. A primeira impressão não tinha sido das melhores, mas se já estava combinado, não tinha porque não ir. O que não podia acontecer era eu ficar no albergue engarrafando peidos esperando a hora de voltar para casa.

Fazia menos frio naquela manhã, por volta de -14 graus. Nossa, tava até um calorzinho. Haha. Tomei um banho para tirar o cheiro de cama do corpo, vesti-me e esperei que ela chegasse. Enquanto esperava, aproveitei para mandar uma mensagem para a família já que a internet no albergue era grátis.

Priceless girl demorou um pouco a aparecer. Atrasou-se quinze minutos do horário combinado no dia anterior. Pegamos um desses trens urbanos e fomos ao “centro” da cidade onde ela me mostraria algumas coisas.

Visitamos lugares, como Manufaktura (uma velha fábrica que virou shopping), Plac Wolności, Ulica Piotrkowska (Ulica = Rua) e outras coisas mais.

- Por que você não tira nenhuma foto? – perguntou Priceless Girl.

Como vocês já sabem o esperto aqui havia esquecido a máquina fotográfica. Tive que explicar que havia caducado e deixado a máquina no Brasil e que desde então tentava memorizar paisagens para que tivesse lembranças do local no futuro. Realmente uma pena, mas fazer o quê.

Paramos para almoçar por volta das 14h. Eu estava com uma fome que eu comeria uma égua inteira na brasa. Voltamos a tal Manufaktura e comemos uma pizza. Tomamos uma cerveja enquanto conversávamos. O telefone dela tocou. Em meio à conversa ela soltou:

- Não, não. Estou aqui almoçando com um amigo.

Amigo? Não minha cara, você tem que me rotular direito.

- Pensei que não era seu amigo e sim seu namorado. – soltei logo a bomba.

- Namorado? Mas você nem me pediu em namoro...

- E precisa? Haha.

Foi assim que o namoro começou. Eu não sou 100% romântico, nem um Dom Juan de Marco. Na verdade eu larguei a bomba e esperei que ela explodisse no colo dela para ver a reação. Já estava gostando da loirinha, ficaria mais um bom tempo na Europa, por que não curtir um relacionamento com alguém legal? Tá, eu sou rápido no gatilho, mas senti uma boa vibração vinda daquela garota. Ela tinha algo que me atraía e me deixava mole. Nunca tinha sentido aquilo não.

- A partir de agora a senhora me apresente como seu namorado.

E foi isso que aconteceu no meu primeiro dia em Łódź. Sinceramente não gostei da cidade. Era muito “underground”, muito triste e medonha. A Priceless Girl discordou comigo é claro. Ela tinha orgulho da cidade onde vivia. Talvez fosse a neve que cobria tudo de branco, o frio que não deixava curtir direito os monumentos, não sei. Apesar de tudo estava curtindo estar ao lado dela.

Ela convidou-me a jantar em sua casa novamente. Disse que o rango seria um pouco melhor ao da noite anterior. Afinal teríamos que celebrar o nosso primeiro dia de namoro. Haha. Seguimos para casa dela a pé. Não era tão longe, cerca de vinte minutos de caminhada. Mas naquele frio tudo parecia longe. Passamos por ruas estranhas e sinistras. Caso fosse Salvador eu jamais andaria por locais daquele jeito. Muito tenso.

Chegamos a casa dela e jantamos uma comida polaca que não fazia idéia o que era; certamente algo com batata. Um vinho, um papinho, uma noite de amor. Estava tudo muito bom em Łódź, ainda bem que comprei passagens que ficavam em aberto. Eu voltaria para Praga naquele domingo, mas resolvi ficar mais uns dois dias. Ainda estava cansado da primeira viagem e começava a gostar da “garota da internet” mais e mais. Aproveitamos e tiramos algumas fotos para marcar o momento.

Priceless Girl e Belino =)

Os dias se passaram e eu já estava ficando sem roupas. Precisava voltar a Praga para ao menos pegar o resto de minha bagagem. Eu estava tendo um bom momento na Polônia, mas ficar lá com pouca roupa estava se tornando difícil. Prometi a Priceless Girl que voltaria o mais breve possível. A minha ida a Rep. Tcheca tinha também outro propósito. Enquanto estava na Polônia li que a União Européia estava dando apoio financeiro para quem pretendia abrir empresa. Talvez essa fosse uma saída. Assim reabriram-se as esperanças de um dia morar em Praga. Seria uma boa averiguar.

A despedida foi um pouco triste, mas eu voltaria e isso era fato. Talvez em um mês ou algumas semanas. A carinha de choro da loirinha não me deteve. Eu tinha mesmo que ir ou teria que comprar uma porrada de roupas lá na Polônia. Na terça-feira pela manhã, ela me levou a estação e esperou que eu pegasse o trem. Faria o mesmo percurso da primeira viagem. Um beijo de despedida, entrei no trem...o último aceno e a volta para Praga começava.

BR Na Europa!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Łódź - Dia, ops, Noite 1


O primeiro dia, ou melhor, noite, na cidade de Łódź foi legal. Priceless Girl levou-me para  casa dela direto da estação de trem para jantar, e só depois ela me levaria ao albergue o qual eu ficaria.

Eu estava um bagaço. Fedia a cerveja, estava cheio de olheiras, com frio, cansado e com muito, mas muito sono mesmo. Acho que se tivesse ficado mais uma hora dentro do trem, ela teria que me carregar nas costas para chegar ao táxi. Uma viagem de nove horas de duração se estender a dezoito é muita sacanagem. Quase um dia inteiro passando frio naqueles trens foi de mais para mim. Finalmente eu teria uma boa refeição e tomaria um belo banho.

Pegamos o táxi e fomos para casa dela. Eu não faço idéia qual a primeira impressão que ela teve de mim, porque só o fedor poderia acabar com qualquer chance que eu teria. Ela era muito mais bonita pessoalmente do que em fotos e muito simpática também. Fomos conversando no táxi e eu contava porque demorei tanto a chegar.

- Eu não acredito! Tudo isso? – perguntou ela.

Às vezes nem eu mesmo acredito no que aconteceu comigo desde que cheguei a Europa. Muita zica cara. Claro que coisas boas também aconteceram, mas é muito mais fácil contar algum fato estranho de forma interessante do que fatos legais.

Enquanto contava eu dava uma olhadinha na cidade. Como era cinza e sem cor... Coberta de neve e gelo para todo lado. Chegava ser depressivo. Aproximamo-nos da casa dela. Estávamos numa espécie de condomínio próximo ao parque da cidade. Prédios bem antigos. Subimos a escadaria e ela abriu a porta.

- Não repare a bagunça. Como você sabe, mudei-me recentemente e muita coisa ainda precisa ser revista.

Era um apartamento pequeno, mas bem aconchegante. Senti aquele calor saindo de dentro do local... Ahh, era tudo que eu precisava. Entrei pelo corredor, ela mostrou-me a cozinha, o banheiro e a sala. Era isso, agora entendi porque não poderia ficar lá. Teria de dividir a cama, o que não seria uma má idéia, mas seria estranho algo assim logo de cara.

Pedi para tomar um banho antes de jantar e ela me concedeu a honra de usar o banheiro ainda não totalmente reformado. Entrei no banheiro e larguei minhas coisas lá. Ela começava a cozinhar o que seria um macarrão aí. Lembrei-me de uma coisa. Voltei e falei com ela:

- Desculpa, mas esqueci de te pedir uma coisa.

- Precisa de algo, tipo sabão?

- Não, não. Eu sei que essas coisas não se pede mas eu poderia te dar um beijo. Isso me deixaria mais a vontade.

Ela olhou para mim cara com olhos esbugalhados e essa era a minha deixa. Parti pro abraço e fiz meu gol mesmo estando fedorento e um caco. Não teve escapatória. Fui tomar meu banho feliz enquanto ela ainda se recuperava do “Impacto Profundo” do “Beijo do Belino”. Olha, eu não sou malemolente como você pensa, mas eu esperei muito para beijá-la, e quando a vi pela primeira vez ao vivo a emoção foi forte, por isso o beijo. Demorei uns trinta minutos para tirar aquele fedor de cerveja do corpo.

Tivemos uma ótima noite, mas eu precisava ir para o albergue dormir. Caso a mãe dela soubesse que eu estava lá a coisa seria um pouco desagradável.

Pegamos outro táxi e ela me levou para um pequeno lugar que seria perto da casa de sua avó. Lá eu passaria a noite e no dia seguinte a encontraria. Fiz o check-in me joguei na cama e apaguei, eram três da manhã e após  vinho e um ótimo momento com a Priceless Girl, eu precisava colocar minha cabeça no travesseiro. Começava assim meu período na cidade de Łódź.