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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Köln - Hora de Mimir...



Às vezes me pergunto: Seria muita zica para uma pessoa só? É difícil compreender como um dia que ia tão bem poderia cagar de uma maneira tão rápida. Digamos que eu sabia mais ou menos o nome do bairro onde meu primo morava, mas acha que um embriagado conseguiria pronunciar a parada direito para um táxi ou algo do tipo? Eu acho que não. Como eu havia dito, eu andava com dois telefones no bolso, um polaco (já descarregado) e outro alemão (também entregue as traças). Não adiantava me desesperar, as duas opções que tinha naquele momento era sentar e chorar ou andar desgovernado. Precisa dizer o que eu escolhi?

Claro que sentar e chorar! Hahahaha. O choro é livre amigo! Brincadeiras a parte, eu dei sorte. Com a agonia de ficar perdido o álcool perde o efeito sobre o corpo, chega a ser algo impressionante. Então respirei fundo e dei uma olhada ao redor. Havia cerca de três farmácias no local, parecia até piada. O infeliz falou que estava em frente a uma delas, mas não disse qual, então voltei à parada do trem para ter uma visão mais ampla do local. O que via era apenas gente de um lado para outro. Olhei em frente a uma das farmácias... Nada. A segunda... Nada. Terceira... Nada. Não era possível. Onde estava aquele infeliz? Virei de costas procurando um lugar para sentar e me lamentar, já estava cansado. Finalmente a luz divina. Bati o olho no sacana com o celular olhando de um lado para outro parecendo um suricati. Estava salvo.

Aproximei-me e foi aquele alívio, poderia até ir para casa naquele momento que para mim seria de boa. Claro que isso não aconteceu, era mais fácil o mundo se acabar naquele momento do que deixarmos de tomar a famigerada cerveja. Para onde iríamos? Rumba. Um bar, pub, sei lá o que era aquilo que pertencia a um amigo. Latino-americanos invadiram aquela cidade de um jeito que parece que a cada esquina tem-se um clube de salsa, merengue, lambada sei lá mais o que. Seguimos por uma rua e dobramos em uma esquina onde tinha um restaurante. Eu já não fazia idéia de onde estava só sabia que estava no centro.

Entramos nesse tal Rumba e a coisa estava quente, nada de falar alemão, era só espanhol lá dentro. Senti-me em casa. Tudo bem que espanhol mesmo eu não falo, mas nada que o velho portuñol não resolvesse. Meu primo parecia um velho conhecido da casa, cumprimentava a todos como se fosse dono do local ou até mesmo alguém famoso... Piada haha. Encostamos-nos ao balcão e fui apresentado ao barman, na verdade o dono do bar. O que você ganha quando conhece o dono do bar? Cerveja “for free”, é claro.

Essa cerveja caiu muito bem, além de ser de graça matou a minha sede. Enquanto o povo dançava freneticamente (sabe como são os latinos, né?) eu tomava minha cervejinha e conversava com algumas pessoas. Havia também alguns brasileiros, também amigos de meu primo, que essa altura já achava “pop”, que falavam sobre suas semanas agitadas. Eu já estava meio bêbado, afinal tinha encarado aquela cerveja durante todo o dia. Precisava gastar energia, precisava “bailar”. Foi então que seu Belino resolveu ir para a pista de dança e “llamar una chica guapa para bailar”.

Terminei meu copo e fui adiante. Havia uma garota bem “jeitosinha”, não tinha cara de alemã e estava dançando com todos. Chamei para dançar. Se você me conhece sabe que eu não sou um dançarino exímio, mas sei dar uns passos legais. Numa lambada ou num forró eu não faço feio, mas salsa, rumba e afins já complica um pouco. Consigo até seguir o ritmo e tapear a galera, mas dançar pra valer... Acho que nunca. A garota aceitou então “dançar” comigo, ela era colombiana e parecia muito animada, chamei logo de Shakira para dar uma moralzinha a ela. Dançávamos numa boa até que veio a pergunta:

- De que país você é?

Soltei um Brasil todo feliz e então o tapa da pantera.

- É por isso que seu espanhol é meio diferente e você não dança direito. Agora eu entendo.

Filha da mãe! Custava ser um pouquinho mais simpática? Mas é aquela coisa, não vou tratar mulher mal, então abri o meu sorriso amarelo.

- Nossa, é tão ruim assim? Parece que preciso de umas aulas.

- Certamente precisa, mas não está de todo mal, com um pouco de prática pode aprender rapidamente. Talvez você até saiba, mas parece um pouco embriagado.

É, embriagado eu estava, mas me senti derrotado, ouvir um elogio desses de uma menina que não era nenhuma Megan Fox é lasca. Mas deixei de lado, dei uma risadinha marota e peguei mais uma cerva para beber. Sei que a noite foi bem longa e pratiquei portuñol como nunca, mas se me pergunta se lembro de muito daquela noite, temo que minha resposta seja não. Claro, quase um ano se passou desde então, mas lembro que dancei com uma alemã meio maluquinha e depois fiquei conversando com ela um tempo. Lembro também que meu primo contou-me que um amigo dele havia perguntado:

- O que ele tanto conversa com ela? Ele sabe alemão?

- Não, e nem precisa. – respondeu meu primo.

- E como conversa tanto?

- Malandro é malandro, Mané é Mané. Tudo tem seu jeito, amigo.

Também não lembro o tópico da conversa, mas lembro que ela era de Berlin. Bem, isso pouco importa. Voltando para casa eu estranhei a minha saúde. Não senti vontade de vomitar, gofar ou nada assim. Pode ser um pouco nojento para você leitor, mas imagina um cara que bebe praticamente o dia inteiro de pé e sem vontade de chamar o velho Raul. Estava feliz com meu fígado, ele parecia de aço, até chegar ao portão do prédio. Enquanto meu primo tentava achar a chave eu via o mundo começar a girar. Foi algo instantâneo. Raul parecia que sairia de minha boca com toda força e o que eu fiz? Corri para a esquina onde não havia ninguém. Como se fosse resolver algo. Hahaha. Dei uma respirada forte, daquelas que até uma bola de gude entraria pelas narinas e assim consegui me controlar.

- Você está bem, cara?

- Acho que sim, é melhor eu deitar logo antes que essa ânsia maldita volte. Cerveja do capeta.

E foi assim que a noite acabou. Cabeça no travesseiro e praticamente um desmaio de tão rápido que dormi.

BR Na Europa!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Köln - Início de Noite



Era cerveja que não acabava mais. Beber com minha raça é um pouco sem noção, pois parece que eles vão beber todas as cervas do bar. O problema é que aquilo também era uma fábrica e ali não tinha como tomar TODAS! Foram muitas acredite, e até a mulher do meu primo já estava preocupada. A partir de agora nomearei os primos para que fique mais fácil a identificação, caso contrário até eu me perderei. Então chamemos os cabras de: primo1 e primo2, sendo o primo1 aquele que me buscou no aeroporto e primo2 aquele que fomos encontrar no centro da cidade. Hehe.

- Não já chega? Já estamos bebendo muito. – falou ela.

Se você um dia foi a Bahia sabia do vício de beber e com eles temos nomes para a última cerveja antes de irmos embora: Saideiras, sipiqueiras, de Jair, a última, a finada... É uma coisa sem fim. Mas já ficava tarde e a conta também ficava cada vez mais gorda. No mais, ainda tínhamos de jantar. Sim, naquela noite teríamos um jantar em família. Talvez me livrasse das batatas que tanto comia na Polônia e ficaria contente com um feijãozinho. Claro que a mulher de meu primo, a qual cozinhava, era vegetariana, então podia-se esperar de tudo.

A conta foi paga e podíamos deixar a taverna. As pernas se entrelaçavam mas eu ainda não estava no meu pior estado. Tudo que eu precisava era de um banho e tudo estaria lindo novamente. Um banho cairia bem, eram mais de vinte e quatro horas de inhaca e agora com bafo de cachaça. Era de mais pra mim. Justo eu que sempre falei mal dos europeus de que não gostam de banho, estava seguindo o mesmo exemplo. Claro que tinha um bom motivo... a cerveja. Mas nem eu aguentava o meu fedor.

Rumamos para casa visando o rango. Já estava meio faminto e o povo ainda me inventa de andar. Vício de europeu em achar que tudo é perto. Odeio andar. Passos e mais passos debaixo de uma garoa, ao menos o suor não escorria. Fazia frio e o vento parecia cortar a pele. Não era como na Polônia e o álcool também aliviava o frio, mas depois de um tempo tomando aquele vento na cara, eu já não sentia o nariz ou as orelhas.

Finalmente chegamos a casa e eu podia tomar meu banho. Não foi o famoso banho de gato, mas também não foi um banho demorado. Fiquei cheirosinho de novo e pronto para uma nova rodada. A mesa já estava arrumada e só faltava o rango aparecer. Entreguei uma camisa da seleção polaca ao primo2 para que ele desse ao meu pai como souvenir. Enquanto isso mais cerveja.

Quando a mulher de meu primo anunciou a janta à mesa meus olhos brilharam de alegria. Meu primo havia preparado um franguinho e ela os outros pratos. Sentamos a mesa e fui logo avisado:

- Belino, sei que você deve estar meio cansado desse tipo de comida, mas hoje comeremos... BATATA.

Jantar em família

E mais batata para alegrar


Que dor no coração. Mais batata para que eu engordasse. Definitivamente eu não voltaria a comer batata por uns três meses. Já não aguentava mais ver a cara daquele maldito caule que só nos faz engordar. Claro que educadamente falei:

- Sem problemas, eu até já me acostumei a comer esse treco amarelo.

Claro que tínhamos outros pratos, mas a batata seria o nosso “arroz” e acho que se não a comesse eu passaria fome o resto da noite. Todavia a comida estava excelente, eu só não pude exagerar no champignon porque o efeito é desastroso em meu rosto, fora isso comi feito um porco esfomeado.

Fotos, risadas e despedidas... Sim, o primo2, o qual demorei a encontrar e achei em frente à loja, estava indo para o Brasil com vôo logo pela manhã. Então após o rango, eu passaria na casa dele para conhecer a morada e pegar umas camisas para mim também. Vale lembrar que eu viajei apenas com vinte quilos de roupas, ou seja, o meu repertório não era lá tão grande e eu começava a repetir roupas demasiadamente, o que não era bom para a minha imagem de “galã de novela” uheuehueh. Claro que poderia comprar, mas eu começava a ficar mão de vaca devido à diminuição de minhas reservas.

Após a janta seguiu-se o plano. Seguimos para o metro, rumamos para o centro e de lá para o apartamento. Ahh, pára tudo. Esqueci de dizer que antes precisávamos esquentar o peito, então paramos num mercadinho para comprar Jägermeister, uma bebida alemã que parece ser feita de ervas e quando desce esquenta o peito que é uma beleza. E apenas após uma dose desse treco que fomos para casa. O lance era o seguinte. Eu estava com minha mochila velha de guerra, botei as coisas dentro e então deveria encontrar o meu outro primo em frente a um bar.

Acredite é uma ótima bebida. Se tiver oportunidade beba.


Como desculpa, primo2 disse que me levaria ao metro para que eu não me perdesse. Eu já estava pra lá de Bagdá, mas me perder ali era meio difícil. Saímos de casa e ele falou que havia um bar brasileiro que deveríamos ir. Acho que ele também estava meio desajuizado, também... bebemos o dia todo. Era explicável. Mais uma paradinha para outro shot de Jägermeister e tudo estava lindo. Seguimos para o tal clube brazuca onde rolava um pagode. Um pagode sempre cai bem, ainda mais para mim que já tinha alguns meses que não via um. Entramos no tal bar e ele tinha bem pouca gente. O pagode rolava com uma bandinha até boa, mas sem gente dançando nem nada disso. Tomei mais uma cerva com o primo2 e dei um tempinho por lá.

O pagode não animou muito, engraçado era ver os BRs fazendo cara de espanto quando eu falava que estava na Polônia: “Mas lá não é muito frio?”. Perguntaram três garotas que estavam no pagode. Claro que é frio aqui nesse fim de mundo, mas se tem alguém para te esquentar tudo fica lindo certo? Não era sempre como estar em Katowice sofrendo...

O celular tocou. Primo1 esperava-me ansioso. Ele queria saber onde diabos eu tinha me metido com primo2, além do mais, a mulher de primo2 estava tensa querendo saber porque ele demorava tanto, e ele no pagode, é mole? Como estava combinado eu iria ao encontro do primo1, até porque primo2 precisava muito ir para casa descansar, afinal ele teria que encarar uma pequena jornada de 10h de vôo, fora a viagem de trem de Köln até Frankfurt. Só de pensar fico cansado. Despedi-me do primo2 e desejei-lhe boa viagem, sai do bar.

No telefone o primo1 continuava a falar:

- Pega qualquer comboio ai onde você está e vai para a esquerda, na primeira parada você desce. Eu estou em frente a uma farmácia.

Fiz como ele disse. Peguei o primeiro trem urbano que passou e fui nele por uma parada, mais uma vez sem pagar, já na mão de vaquice. Desci e vi a farmácia. Fui até a porta e não vi o infeliz do primo1. Àquela altura do campeonato eu já não fazia idéia de como ir para casa. O celular estava com a bateria quase esgotada, mas tocou novamente. Quando atendi a bateria descarregou... eu estava perdido, meio bêbado, e em meio a uma multidão que andava de um lado para o outro no centro da cidade. Estava frito.



BR Na Europa!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Encontros...

O dia seguinte já estava todo agendado. Primeiro iria à embaixada, depois iria dar um passeio com a Sra. Hakkinen para que ela me mostrasse parte da cidade que eu não conhecia. Logo pela manhã fui ao centro, rumo a embaixada brasileira. Esse negócio de embaixada é sempre um pé no saco. Cheguei e fui logo atendido pelo cônsul. Ele ficou surpreso ao me ver novamente e perguntou como estava o processo de abertura da empresa.

- Não há empresa nenhuma. Eu desisti e resolvi viajar um pouco mais.

- Sei, mas segundo a secretária o assunto de nossa conversa seria relativo a isso, certo?

- Exato. Gostaria de saber um pouco mais sobre o apoio financeiro da União Européia. O senhor não me comunicou.

- Ah, sim. Existe esse apoio, mas apenas a pessoas que possuem direitos como cidadãos tchecos, residentes e possuidores de visto permanente ou temporário. O senhor possui algum desses documentos?

- Não.

- Então não pode tê-lo. O processo é um pouco burocrático, mas semelhante ao sistema do BNDES, porém caso você mantenha a empresa não precisará reembolsar a união européia, desde que siga os passos de seu relatório inicial. Como o senhor não tem como dar início ao processo de abertura de empresa, acho que nossa conversa acaba aqui.

Simples e grosseiro. Sem chances pra mim e mais uma vez eu saia da embaixada murcho. Não tinha porque ficar em Praga, era melhor ir para a Polônia e ficar com minha nova namorada. Sai da embaixada, segui para estação e comprei passagens novamente para Łódź, dessa vez sem volta. Eu iria no sábado a noite, sim novamente a noite. Não havia passagens para Katowice durante o dia. Se eu desse de cara com o “russo” novamente eu acho que choraria.

Voltei para casa para esperar a Sra. Hakkinen, tínhamos combinado de sair para que ela me mostrasse alguns lugares. Ao abrir a porta tive a surpresa. Mika estava lá. Ela abriu um sorriso e me cumprimentou. Foi bem simpática, mas a situação era incômoda. Não havia ninguém na casa a não ser ela. Não queria ficar lá com ela, eu poderia fazer alguma besteira. Então, chamei-a para tomarmos um café na galeria que ficava próximo a casa. Ela aceitou.

Conversamos um pouco, sobre a vida. Ela só falava do trabalho e eu da viagem, estava quase como o chato do trem. Na verdade eu só queria fazer com que o tempo passasse e a Sra. Hakkinen chegasse em casa. A Mika estava lá porque precisava ir ao médico. Iria voltar no mesmo dia para Ostrava, o que, não minto, deixou-me um pouco aliviado. Após um café bem enrolado, ela recebeu um telefonema. Era Chun Li certamente dando notícia ruim. Sua avó havia caído de uma cadeira e não conseguia se levantar. Ela estava presa dentro de casa e não tinha como ninguém entrar.

A queda da vovó me livrou da situação de ter de conversar com minha ex-noiva como se nada tivesse acontecido. Havia uma grande comoção na família para ajudar a snhora de certa idade, mas ninguém possuía a chave do apartamento a não ser o tio de Mika. A saída com a senhora Hakkinen foi cancelada devido a esse fato.

Como não tinha nada para fazer liguei para a Priceless Girl para avisar que eu estava voltando no sábado. Ela se desesperou:

- Mas rápido assim?! Pensei que você levaria um mês aí?

- Não gostou da notícia?

- Eu adorei, ficarei te esperando.

- Ah, tem mais um detalhe, dessa vez não ficarei em hotel.

- E onde você vai ficar?

- Em sua casa.

Acho que se fosse vídeo chamada eu poderia ver ela esbugalhar os olhos de susto. Ela gaguejou, falou que ia comunicar a mãe. Estava feito. Eu iria de mala e cuia para Polônia. 

BR Na Europa!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Corte de cabelo no "Albergue"

A idéia de voltar a Praga era pegar minhas muambas e voltar à Polônia, mas como rolou o lance da União Européia eu pensei que poderia ficar por lá. Logo pela manhã liguei para embaixada para marcar um novo horário com o cônsul. Feito isso a Sra. Hakkinen apareceu avisando que tínhamos um convite para ir numa festa. A namorada de seu filho mais velho estava se formando e seria legal que eu fosse. Topei a parada, mas tinha um pequeno detalhe. Eu precisava cortar a minha juba.

Como Jerry, o mais novo dos Hakkinen, também estava cabeludo, a senhora Hakkinen resolveu levar-nos a sua cabeleireira de confiança. Eu fiquei logo bolado, porque não é qualquer um que sabe cortar cabelo duro. Tá, o meu não é tão duro, mas comparado aos cabelos tchecos o meu era “hardcore”.

- Não tem problema, Belino. Ela tem marido de cabelo diferente também, vai fazer um bom trabalho em sua cabeça. – já viu que esse negócio não iria dar certo, né?

Saímos os três para arrumar as cabeleiras. Seguimos em direção ao centro, e paramos na estação Muzeum, onde trocamos de linha. Paramos umas duas estações antes de onde ficava o maior shopping de Praga. Era um lugar residencial. Eu ainda não tinha passado por ali, mas por algum motivo me lembrava algumas ruas polonesas. Bem estranho mesmo.

Chegamos a um prédio e a Sra. Hakkinen usou o interfone. Jerry e eu estamos com ela, mas sem vontade nenhuma de participar dessa seção de beleza. Era melhor ter ficado em casa jogando Halo, mas como eu precisava apresentar-me bem para a bendita festa, o corte de cabelo era necessário, além do mais, meu cabelo quando grande é algo bem feio.

A porta se abrir diante a nós. Havia um pequeno corredor defronte. Era escuro e nele uma escada. Você já assistiu “O Albergue”? Pois bem, me senti no filme. Era o mesmo clima. Coisa de louco mesmo. O cheiro também era bem estranho. De coisa velha. Jerry pareceu não se importar e passou na frente subindo as escadas. Eu fiquei olhando e hesitando entrar, enquanto a Sra. Hakkinen dizia:

- Vamos, estamos atrasados.

Parece bobagem, mas eu pensei: “Será que agora vão arrancar minhas tripas como no filme só porque não casei com a filha dela?”. Isso ficou só no pensamento e fui subindo calado.  Na escadaria havia algumas janelas de vidro que deixavam a luz entrar, só que ela vinha “cortada” por grades de vidro, o que deixava o ambiente mais sinistro. Chegamos ao último andar e uma porta se abriu.

Uma loira sorriu e começou a conversar com a senhora Hakkinen. Entramos; era uma pequena sala com acessórios de salão de beleza. Consegui respirar tranqüilo assim que tirei aquelas cenas fortes do filme de minha cabeça. Jerry seria o primeiro a cortar a juba e eu iria em seguida. Peguei uma das revistas de fofoca de artistas tchecos pra dar uma olhadinha enquanto esperava.

O corte de Jerry não demorou muito e logo era minha vez. A mulher mandou-me sentar a cadeira. Aconcheguei-me e ela veio com a capa protetora. Foi aí que começou o pepino. Ela perguntou algo sobre o corte e eu lá com minha cara de bunda. A mulher não falava nada em inglês, NADA. Eu sinalizava de um lado, apontava de outro, amassava a cabeleira para mostrar a altura... a coisa estava complicada. Peguei e pedi a Jerry que traduzisse para mim:

- Você é a profissional aqui, faz o que achar que fica bom.

Jerry traduziu a frase e ela falou:

- Dobrý. – ou algo do tipo, já não lembro muito da língua tcheca.

Ela começou o corte. Picota daqui, máquina raspando acolá. Que tristeza, eu olhava o corte sendo feito no espelho e via a cagada sendo feita. Não era nada parecido com o meu corte tradicional. Deixe pra lá. Se ficasse pior que aquilo iria pedir para raspar. Era melhor ficar careca.

O corte foi feito. Eu sinceramente não gostei, ficou bem esquisito. Ainda mais com o penteado que ela me arrumou. Fazer o quê? Ao menos eu sabia que o cabelo cresceria novamente, ainda teria salvação. Talvez com um penteado diferente desse para passar despercebido na festa. Deixa pra lá.

A Sra. Hakkinen iria fazer algo demorado no cabelo e disse para irmos para casa. Falou que pagaria tudo e que eu não me preocupasse. A noite por volta das 10 teríamos a festa para ir. Jerry e eu voltamos para o apartamento para aproveitar o resto da tarde e jogar um pouco de videogame. A noite prometia...

BR Na Europa!

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

De volta a Praga com uma praga falante

Como não fazia tanto frio tinha certeza que a viagem não seria tão sofrida quanto a ida para Łódź. Seria meio complicado mais dezoito horas dentro de um trem novamente. Eu já não teria a mesma paciência para agüentar tamanho sofrimento. Aquela viagem PRECISAVA mais do que tudo ser rápida e tranqüila, pois a meta era chegar a Praga antes do jantar.  Também não achava que seria legal chegar tarde a casa dos Hakkinen. Eu tinha as chaves e tudo mais, mas acho que seria bem rude chegar e não falar com ninguém.

Enquanto o trem seguia para Katowice e eu rezava para que nenhuma pausa acontecesse, eu notei o quão cheio o comboio estava. Só em minha cabine havia quatro pessoas. Talvez por ser manhã estava tão cheio assim, não sei dizer. Só sei que me sentia mais seguro. Havia me prometido que trens noturnos nunca mais, e assim pretendia que fosse.

A viagem foi linda no primeiro trecho. Consegui curtir as paisagens sem a frustração de ficar “estacionado em canto algum”. Em cerca de três horas e meia eu estava na estação de Mordor, ou melhor, Katowice.
Aquele lugar era assombroso não importava a hora do dia. Como já sabia todo o esquema da estação, parei e olhei o quadro de horários. Teria que esperar uma hora e meia pelo meu trem. O frio dentro do saguão era imenso e o vento que corria só fazia piorar. Os pombos dando vôos rasantes sobre as cabeças eram coisa de louco, ao menos não cagaram em mim.

Priceless Girl havia preparado uns sanduiches para a minha viagem. Foi ótimo, pois não precisei comprar comida. Segui para a cafeteria para passar o tempo. Um cafezinho para esquentar o peito e só. Ainda tinha cerca de quarenta e cinco minutos naquele inferno gelado. Como a cafeteria era bem pequena, não dava para eu ficar lá com uma xícara apenas ocupando lugar onde outras pessoas poderiam sentar. Saí e fui para o mesmo banco que fiquei esperando na primeira vez, em frente ao guichê de informações. O frio estava de lascar, fazia cerca de -16 graus.

Comi um chocolate e peguei a bíblia para ler. A reza para não ficar no meio do caminho precisa ser forte. Vi um rapaz com cara de estrangeiro próximo a mim. Ele andava de um lado para outro sem parar.
- Cara estranho. – pensei. – Não tem cara de polaco, ou de ser por essas bandas, é melhor deixar quieto, não quero confusão pro meu lado dessa vez.

Era hora de seguir para o trem. Peguei meus bagulhos e fui para a plataforma. O trem já estava lá esperando para zarpar. Entrei, procurei uma cabine vazia como de costume e me acomodei. O trem estava bem aquecido, não tinha do que reclamar. Sentei-me coloquei o chIpod no ouvido e esperei que partíssemos.
Em poucos instantes o cara maluco que andava de um lado para outro chegou a porta da minha cabine, abriu e perguntou em inglês se podia sentar-se lá também. Como não sou dono de nada liberei a entrada do infeliz. Ele tirou quase trinta quilos de capote do corpo e sentou-se. Respirava ofegante, e tinha um motivo. Assim que ele entrou na cabine, o trem partiu.

- Ainda bem que consegui chegar. – resmungou em português.

- Ou, você fala português cara? – perguntei entusiasmado.

- Pow! Falo sim, você é de onde?

- Sou de Salvador. E você?

- São Paulo. Você mora aqui na Polônia?

- Não, estou só de passagem. Estou voltando a Praga.

- Ah! Então já conhece Praga? Vale a pena mesmo a cidade? Também estou indo para lá.

Ai começou o bate papo de uma pessoa só. Ele começou a contar a viagem dele pelos cantos que havia passado. Berlin, Amsterdã, Estocolmo, Oslo... e estava saindo de Krakow para ir a Praga. A coisa andava até bem, o negócio é que o cara não parava de falar um minuto sequer. Era um monólogo daqueles bem chatos. O cara estava emocionado por estar passando frio. Que droga de emoção é essa? Cara masoquista. Ele simplesmente não parou de falar um segundo, do frio da Suécia, dos lugares que viu em Berlin, que ele amou Berlin, que ele iria voltar a Berlin, que gostou da Holanda, que não viu nada de interessante em Copenhagen... Ah! Eu fico cansado só de lembrar disso.

Então que veio a idéia da tática infalível do chIpod no ouvido. Fui vagarosamente catando o fone de ouvido do chIpod, selecionei uma música bem barulhenta, botei no máximo e coloquei o fone quando ele deu uma brecha no monólogo. Nem assim o cara parou de falar. Para piorar o chIpod morreu. Acabou a droga da bateria. Eu estava condenado a ouvir toda a conversa chata do cara durante a viagem que duraria cerca de seis horas.

Ele falou, falou, falou até que se cansou. Eu já nem dava ouvidos. Foi uma atitude um tanto rude, mas eu já tava de saco cheio daquela conversinha fiada. Após um bom tempo de viagem chegamos a Ostrava.

- Ainda falta muito? – ele me perguntou.

- Por volta de cinco ou seis horas. Quando chegarmos a Konin faltará bem pouco, então fica ligado nas placas. – respondi.

Ele então deve ter percebido que eu não estava com vontade alguma de ouvir e se calou. Seguimos então em silêncio, ou melhor, apenas com o barulho do trem, aproveitei para tirar um cochilo. A viagem era muito longa. Em alguma cidadela após Ostrava o trem encheu. Um monte de gente entrou e se amontoou dentro do vagão. Três garotas abriram a porta da cabine e se sentaram, conversavam em tcheco. O silêncio que eu tanto gostei para cochilar tinha desaparecido.

Uma das meninas então me cumprimentou. Não lembro o nome dela. Era bonitinha e tinha um jeitinho bem meigo. Perguntou de onde eu era e se estava gostando da Rep. Tcheca. Lembro que ela falou que fazia faculdade de história. E que tinha muita vontade de conhecer a fundo a história do Brasil. Conversamos sobre outras coisas mais até que o outro brasileiro se intrometeu. Ninguém entendeu nada. Eram três meninas e elas olharam uma pras outras, comentaram alguma coisa em tcheco e começaram a rir.

- Você é francês? – a que conversava comigo perguntou ao infeliz.

- Não, também sou brasileiro. Todos falam que ao falar inglês eu tenho sotaque de francês.

Haja paciência... O cara cortou o meu papo para falar besteira. Que Mané chato viu. A menina tentava falar comigo e ele cortava o tempo todo. Eu pensei em dar um chute no saco daquele cara para ver se ele calava-se. Só ficou no pensamento. Maldito. Mas isso ainda não foi tudo, como se não bastasse, ele parou para contar para as garotas a mesma história que contou para mim. Anteriormente, só que dessa vez em inglês. Eu pedi a morte. A mesma história de novo? Que saco! Eu amei Berlin, porque Berlin é fantástica, Berlin é perfeita, porque eu vi uma caquinha de cachorro no muro de Berlin.... Putz!

Eu já não agüentava mais aquilo, nem as meninas. Elas meio que deram as costas para o cara, mas mesmo assim ele não parava de falar. Elas ainda deram sorte de saírem antes de Konin, mas eu teria que ficar ali porque agora as outras cabines estavam todas cheias.

Ele perguntou como chegar ao centro da cidade, pois o albergue o qual ficaria se encontrava lá, e como poderia comprar passagens para o transporte público. Expliquei a ele direitinho, foi o tempo suficiente para chegar a Praga e me livrar da praga. Hehe.

Era o fim de uma viagem sem quebra de trem, sem frio (a não ser na estação), sem “russo”, mas com um chato no pé do ouvido que não parava de falar. Estava na hora de seguir para casa dos Hakkinen. Não teria problema com horários já que ainda eram 18h.

BR Na Europa!