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sábado, 6 de novembro de 2010

A Sogra

Uma vez a Sra. Hakkinen me disse enquanto me mostrava a cidade de Praga:

- Você é uma pessoa adorável, difícil não gostar de ti.

Em um sábado pela manhã fiquei pensando nisso quando Priceless Girl deu-me uma notícia:

- Ah! Esqueci de falar. Minha mãe quer que jantemos na casa dela amanhã a noite.

Geralmente quando estamos num relacionamento e temos que conhecer os sogros entramos em pânico, mas graças a frase da Sra. Hakkinen eu fiquei tranqüilo. Afinal, segundo ela, eu era adorável e as pessoas gostavam de mim. Haha.

- Tudo bem. Amanhã iremos.

- Tem certeza?

- Qual o problema? Ela não vai correr atrás de mim com uma faca porque estou namorando a filha dela, certo?

- Tudo bem, confirmarei nossa presença.

Sabe aquele sentimento de que se você conhece sua sogra é porque a coisa está ficando séria? Pois foi isso que senti. Tinha pouco mais de uma semana desde que voltei à Polônia e recebi esse convite. Acho que eu esperava por isso e assim não liguei muito, mas o sentimento de que a coisa estava ficando séria tomou conta de mim.

Se pararmos para pensar eu cai de pára-quedas na vida da Priceless Girl. Ela tinha uma vida tranqüila até eu invadir o apartamento, tomar parte do guarda-roupa, começar a fazer compras, passear, dividir as despesas, limpar a casa... Meu Deus! Era uma vida de casado sendo que eu era a Maria e ela o João! Não vou mentir que os meus dias assim eram bem cômodos. Jogava meu videogame quando queria, ia ao cinema, tinha sempre um trocado no bolso... Estava tudo muito bem. Na verdade não sei do que as mulheres reclamam.

O jantar havia ficado para domingo. Priceless Girl e eu já havíamos combinado de ir ao mercado e fazer algumas compras antes de irmos para casa de sua mãe e foi isso que fizemos. Saímos pela manhã e ela mostrou-me outro mercado onde as coisas eram quase a metade do preço. Sacanagem! Custava dizer antes? Assim eu não precisava gastar tanto. O negócio ficava perto de casa, dava para ir andando que em 5min eu estaria lá.

Indo para o mercado... brrrrr


Voltamos para casa para que eu me “embonecar”. Tomei um banho, fiquei cheirosão e era hora de encarar a sogra. Sinceramente não fiquei nervoso nem nada. Já não posso dizer o mesmo da minha namorada, foi a primeira vez que a vi tão nervosa com alguma situação. A primeira de muitas... Saímos de casa, pegamos um ônibus e assim fomos para a casa da sogrinha.

Realmente ficava bem próximo do albergue que eu havia ficado hospedado quando fui a cidade pela primeira vez. Seguimos para o prédio e Priceless Girl interfonou. Nem precisou falar nada e a porta se abriu. A mãe dela já estava esperando ao pé do interfone provavelmente ansiosa. Subimos a escada e alguns andares acima a porta se abriu.

Uma senhora nos recebeu, era a senhora Priceless com um sorriso no rosto. Abraçou a filha e cumprimentou-me. Aparentava ser uma pessoa bem simpática assim como a filha. Mas fisicamente elas eram bem diferentes, acho que apenas na estatura se assemelhavam. Além disso, a Priceless Girl sempre agia de forma enérgica enquanto sua mãe tinha uma expressão de pessoa que adora dormir. Isso não vem ao caso. Entramos e fomos para a sala.

A expectativa para o rango era grande. Muitas meninas já me disseram que se ganha um homem pela boca. Mas esse não era o “dom” da minha namorada. Ela sabe cozinhar, mas no geral é comida polaca e macarrão. Ela sabe fazer todos os tipos de macarrão que você imaginar. Além disso, tem uma panqueca divina, nunca tinha comido panquecas como a dela. Voltando à mesa, esperava dessa vez ser “laçado” pela boca.

A primeira refeição... Sopa. Se você me conhece a fundo, sabe que esse é um prato que nunca me agradou. 
Não importa o tipo de sopa, para mim é tudo igual. Como convidado não pode dar pitaco. Agradeci e tomei caladinho a minha sopinha. Estava até gostosa, mas sopa... Não é comigo. Enquanto colocava o rango para dentro, a Sra. Priceless começou a conversar. Fui surpreendido com o seu inglês, desde que tinha chegado à Polônia, ninguém com mais de trinta anos havia falado outro idioma comigo a não ser o polaco.

A sogrinha vendia a boa imagem de seu país enquanto eu finalizava minha sopa. Troquei o prato e a refeição principal estava a caminho. Eu não lembro direito o que foi que comemos naquele dia, mas certamente algo com batata, ou algo feito com batata, ou até mesmo batata ao molho madeira... Não sei.

Após a janta um chazinho para esquentar o peito e mais bate-papo. Priceless Girl deixou-me sozinho com sua mãe para olhar algo no computador. Eu continuava a conversar numa boa. Até que ela perguntou: (Essa conversa será postada em inglês por motivos de força maior)

- So, do you like Poland?

- Not really. At least your daughter makes me like it a bit.

- I know, it’s really difficult here in Łódź. For example, the streets are full of digs.

Nesse momento eu me segurei… Cheias de que? Parecia que ela havia falado “dicks”. A pronúncia é um pouco parecida, mas para eu ouvir aquilo algo estava errado... Para que eu trouxe o meu para cá? Haha. Claro que não ri na cara da mãe dela, seria de muito mau gosto.

- Err. Seria melhor pegar um dicionário para rever essa frase aí. – falei com um sorriso amarelo na cara.

Ela chamou pela filha para perguntar do erro. Priceless Girl não disse nada e então sua mãe foi pegar o dicionário para conferir.

- Oh dear... I’m sorry.

- Sem problemas. Acho que eu ouvi errado. De qualquer forma, melhor usar um sinônimo.

Eu ria por dentro, mas não podia mostrar. Que coisa... Cheia de “dicks”. Lá ele. O papo continuava e a coisa ficou mais séria. Ela começava as famosas perguntas sobre as intenções com sua filha. Aí sim a coisa apertou.

- E qual são suas intenções com minha filha?

- Não posso dizer ainda. Não depende só de mim. Gosto muito de sua filha, mas não posso definir nosso futuro sozinho. Ela também tem que mostrar o que deseja. Amo sua filha, mas não depende só de mim.

Meu Deus... Falei que amava a Priceless Girl do nada. Acho que foi o subconsciente. Nem eu sabia o que falar em seguida e mal consegui pensar. O palco estava armado e agora eu era o centro das atenções. Coração mole esse meu. Talvez estivesse gostando da minha vida de Maria. Vai saber. Ao menos fui salvo pelo gongo.

- Temos que ir para casa. – falou minha namorada.

- É melhor.

Despedimo-nos da Sra. Priceless e seguimos para casa. Eu queria que a viagem fosse em silêncio. Não aconteceu. Ela queria saber o que sua mãe conversado comigo.

- Nada de mais, só disse a ela que te amava.

BR Na Europa!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Em Nome do Vício - Final Capenga

O estacionamento era gigante. E estava cheio de áreas onde o gelo imperava. Eu derrapava muito, parecia mais o Michael Jackson, mas fazendo o “moonwalk” para frente. Não deu muito trabalho atravessar aquele treco, digamos que eu tinha o macete. O negócio era entrar no shopping, comprar minha muamba e cair fora dali. Mas você sabe como são as coisas, dinheiro no bolso e shopping são coisas que não combinam.

Entrei no bendito local pelo segundo andar. A primeira coisa que vi foi um supermercado. Como sempre andei com a mochila pensei em comprar alguma coisa para levar para casa. Já que estava na casa dos outros, comendo, dormindo, bebendo e gastando energia tudo na conta da Priceless Girl, fazer umas comprinhas não fariam mal. Eu não tinha aberto a dispensa para ver o que era necessário, mas queijo, presunto, coca-cola... Essas coisas sempre são bem vindas dentro de casa. Eu faria a tal compra após achar o local para comprar o adaptador pro meu vício. Saí da frente do mercado e comecei a caminhar.

Lojas, lojas e mais lojas, mas nada de eletrônicos. Nem mesmo uma loja de videogame achei. Seria possível? Parecia que sim. Dei mais uma volta pelo shopping para ter certeza de que não havia passado sem perceber. A única loja que tinha artigos eletrônicos era uma loja de departamentos, e uma livraria. O bendito adaptador não encontrei em nenhuma das duas. Onde seria essa bendita loja a qual a Priceless Girl se referia? Resolvi então perguntar ao velho guardinha.

Se você já esteve na Polônia alguma vez na vida deve saber que em algumas cidades quase ninguém fala inglês. Era o caso de onde eu estava. Como explicar o que eu queria? Não tinha nem como fazer gesto.

- Eletronics, eletronics...

E o cara me levou para uma loja onde se vendia TVs e geladeiras. Era de se esperar. Eletrodomésticos, eletrônicos... Tudo a mesma coisa. Agradeci e fiquei me perguntando o que fazer. Passando novamente pela praça de alimentação vi a minha solução. Havia uma loja do lado de fora e parecia ser de departamento. Seria ali?

Abri a mochila, tirei o casacão, agasalhei-me todo para encarar o frio novamente e segui para a tal loja. Entrei. Era uma loja de departamentos apenas de eletrônicos, certamente estava no lugar certo. Agora era achar o bagulho em meio a tantos adaptadores. Olhei, olhei e nada. Não achava a porcaria. Tinha adaptador de tudo que era tipo e modelo menos o que eu precisava na estante. O jeito era ir a um atendente e rezar para que ele falasse inglês. Dirigi-me a um senhor que trabalhava na loja e comecei a explicar a situação. Ele entendeu e levou-me para uma outra estante com adaptadores. Estava lá o que eu queria. Restava apenas pagar, passar no mercado, comprar uns bagulhos para comer e voltar para frente da TV iniciando o meu vício.

BR Na Europa!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Em Nome do Vício - Parte 1

A minha volta a Polônia foi tranqüila. Sem transtorno na viagem, sem “russo” sem cerveja, tudo como manda o figurino. Priceless Girl buscou-me pela manhã na estação de trem e fomos para casa dela onde eu ficaria. Coloquei minha tranqueira toda no guarda-roupa, e ficamos conversando para colocar as novidades em dia.

Era estranha a situação, pois parecia que eu havia invadido a vida dela. Como o cara chega assim do nada, toma parte do guarda-roupa e diz que vai ficar até março? Eu era muito cara de pau. Eu não sabia qual seria meu destino após a Polônia, só sei que eu teria que voltar a Praga para embarcar de volta para o Brasil.

Os primeiros dias passavam e a coisa continuava a mesma. Pela manhã ela acordava e ia para o trabalho enquanto eu ficava em casa assistindo TV ou no computador fuçando a internet. Eu não podia sair de casa, porque caso saísse e batesse a porta eu teria que ficar na rua até que ela voltasse, o que poderia demorar um bocado. Priceless Girl tinha um emprego normal em uma companhia finlandesa, e a noite tinha atividades como instrutora de aeróbica em algumas academias. Portanto, ela poderia chegar até mesmo às 10 da noite. Era melhor não sair.

Após dois dias resolvi armar o Xbox e jogar um pouco. Era segunda-feira e não tinha nada para fazer. Ligar a TV e não entender nada do que se falavam não era legal. Era só blábláblá. Tirei o material vicioso da mochila e fui armando-o na sala. A TV que ela tinha era um “pouco” antiga, mas estaria tudo numa boa desde que funcionasse. Como não era esses modelos LCD, LED ou Plasma de hoje em dia sabia que o cabo HDMI não serviria de nada. Foi então que peguei o cabo para colocar na entrada AV. Virei a TV de lado e pimba! Não tinha AV. ¬¬

Era aquela entrada antiga que só se via na Europa. Eu precisava de um adaptador. Na caixa do aparelho sabia que encontraria, mas como levei na mochila, acabei deixando algumas coisas na casa dos Hakkinen, e o adaptador tinha ficado lá junto com a caixa com instruções e tudo mais. Não tinha outra opção, era sair para comprar o tal adaptador. Eu não quis arriscar ficar fora de casa até sabe-se lá que horas. Esperei para contar a minha decepção a Priceless Girl à noite.

Ao chegar em casa tive uma ótima notícia. Ela trazia consigo chaves para mim. Tinha pegado com sua mãe as chaves extras e deixaria comigo para que eu não ficasse preso em casa como um detento em condicional com aqueles rastreadores na perna. Fiquei feliz com a notícia e contei a ela sobre o problema com a TV.

- Você pode ir a uma loja em Manufaktura. Eles têm quase tudo de eletrônicos lá, certamente irá encontrar o que deseja. – disse ela.

Então era isso, durante a manhã eu iria ao centro tentar achar esse tal adaptador. Como estaria sozinho, seria o primeiro desafio lingüístico que teria na cidade de Łódź, e lembrando que tive uma péssima experiência em Katowice, sabia que aquilo não seria nada fácil.

Na manhã seguinte, após a minha namorada sair para o trabalho, resolvi me preparar psicologicamente para ir encarar meu desafio. Eu sabia mais ou menos o caminho a pé para o local. Não tinha o excelente mapa do McDonald’s comigo, teria que me virar. Vesti-me, fiz o sinal da cruz e sai de casa.

Estava frio lá fora, era neve acumulada em todo canto, gelo nas calçadas e um vento que parecia rasgar a pele. Nada disso importava, eu era guerreiro, precisava da droga do adaptador e não iria desistir por causa de um “friozinho bobo”. Saí do bloco onde estava e segui pela rua principal. Eu não tinha calçados para aquele tipo de ambiente. Usava um tênis baixo e marrom, que usara em Salvador para ir à faculdade. Então você imagina a situação, eu tentando andar e a neve que se acumulava e já batia quase no tornozelo, não deixando. Seria um árduo trajeto até o centro.

Andei pela rua principal e cheguei a um cruzamento.

- Hmm, acho que devo seguir adiante. Se não me engano a frente acharei uma pequena passarela que corta trilhos do trem.

Coisa linda é que na Europa você aproxima-se da faixa de segurança e os motoristas param. Param? Sim, eles param, mas não na Polônia. É raro um sacana parar para que você passe. E eu fiquei um bom tempo no cruzamento esperando um filho de Deus parar para que eu pudesse atravessar. E adivinha... Ninguém parou. 
O jeito era meter a cara e rezar para eles ao menos diminuírem a velocidade naquele asfalto escorregadio. Arrisquei-me e deu certo, quando eu estava no meio da faixa vi carros diminuindo a velocidade e parando enquanto eu estava na faixa.

- Hmm, então é assim que funciona aqui.

Saí andando numa boa e continuei seguindo a rua. Andar naquela neve parecia como na arei de praia, acho que por isso esse povo polaco desenvolveu pernas tão fortes. Três meses andando em toda aquela neve não teria como haver outro resultado. Seguia pela calçada, e logo vi a passarela. Subi as escadas e atravessei-a. Cheguei a uma avenida e precisava atravessar. Esperei que o sinal fechasse e atravessei-a. Deveria seguir em frente? Eu não lembrava direito, mas o senso de direção dizia que deveria. Eu saberia que estaria perto quando visse uma bicicleta pintada de branco que pertencia a um rapaz que havia morrido atropelado ali.

Eu continuava a me “arrastar” pela neve tentando ver a tal bicicleta branca. Avistei-a de longe e então percebi que não estava perdido. Estava chegando perto dela quando algo um tanto quanto inusitado ocorreu. Uma pessoa estava tirando a neve da varanda do apartamento e eu não tinha percebido. Ao passar perto recebi uma rajada de gelo na cabeça. Maldição. Acho que eram cerca de 6kg na minha cabeça. Não deu nem tempo de reclamar com o sacana que jogou aquilo em mim, quando olhei para cima não vi mais ninguém. O jeito era limpar-me e continuar o percurso.

Após a bicicleta havia um muro gigante e um clima um tanto quanto sinistro. Acredite, a cidade é bem esquisita quando se vê pela primeira vez e no inverno parecia uma cidade fantasma. O muro pertencia a um cemitério e eu odeio cemitérios. Tudo que mais queria era sair daquela área. O muro parecia não ter fim. Andava o mais rápido possível para passar por aquilo e enfim vi um semáforo adiante. Era o ponto de chegada.

Atravessei o sinal e um estacionamento que vinha logo à frente. Estava num shopping chamado Manufaktura. O que restava era apenas achar a tal loja que Priceless Girl havia indicado.

BR Na Europa!

sábado, 23 de outubro de 2010

Momentach Łódź

Acordei por volta das dez da manhã fui me arrumar. Havia combinado com a Priceless Girl que sairíamos e ela me mostraria um pouco da cidade. Sinceramente eu não estava com muita vontade de ver o “mundo cinza” de Łódź. A primeira impressão não tinha sido das melhores, mas se já estava combinado, não tinha porque não ir. O que não podia acontecer era eu ficar no albergue engarrafando peidos esperando a hora de voltar para casa.

Fazia menos frio naquela manhã, por volta de -14 graus. Nossa, tava até um calorzinho. Haha. Tomei um banho para tirar o cheiro de cama do corpo, vesti-me e esperei que ela chegasse. Enquanto esperava, aproveitei para mandar uma mensagem para a família já que a internet no albergue era grátis.

Priceless girl demorou um pouco a aparecer. Atrasou-se quinze minutos do horário combinado no dia anterior. Pegamos um desses trens urbanos e fomos ao “centro” da cidade onde ela me mostraria algumas coisas.

Visitamos lugares, como Manufaktura (uma velha fábrica que virou shopping), Plac Wolności, Ulica Piotrkowska (Ulica = Rua) e outras coisas mais.

- Por que você não tira nenhuma foto? – perguntou Priceless Girl.

Como vocês já sabem o esperto aqui havia esquecido a máquina fotográfica. Tive que explicar que havia caducado e deixado a máquina no Brasil e que desde então tentava memorizar paisagens para que tivesse lembranças do local no futuro. Realmente uma pena, mas fazer o quê.

Paramos para almoçar por volta das 14h. Eu estava com uma fome que eu comeria uma égua inteira na brasa. Voltamos a tal Manufaktura e comemos uma pizza. Tomamos uma cerveja enquanto conversávamos. O telefone dela tocou. Em meio à conversa ela soltou:

- Não, não. Estou aqui almoçando com um amigo.

Amigo? Não minha cara, você tem que me rotular direito.

- Pensei que não era seu amigo e sim seu namorado. – soltei logo a bomba.

- Namorado? Mas você nem me pediu em namoro...

- E precisa? Haha.

Foi assim que o namoro começou. Eu não sou 100% romântico, nem um Dom Juan de Marco. Na verdade eu larguei a bomba e esperei que ela explodisse no colo dela para ver a reação. Já estava gostando da loirinha, ficaria mais um bom tempo na Europa, por que não curtir um relacionamento com alguém legal? Tá, eu sou rápido no gatilho, mas senti uma boa vibração vinda daquela garota. Ela tinha algo que me atraía e me deixava mole. Nunca tinha sentido aquilo não.

- A partir de agora a senhora me apresente como seu namorado.

E foi isso que aconteceu no meu primeiro dia em Łódź. Sinceramente não gostei da cidade. Era muito “underground”, muito triste e medonha. A Priceless Girl discordou comigo é claro. Ela tinha orgulho da cidade onde vivia. Talvez fosse a neve que cobria tudo de branco, o frio que não deixava curtir direito os monumentos, não sei. Apesar de tudo estava curtindo estar ao lado dela.

Ela convidou-me a jantar em sua casa novamente. Disse que o rango seria um pouco melhor ao da noite anterior. Afinal teríamos que celebrar o nosso primeiro dia de namoro. Haha. Seguimos para casa dela a pé. Não era tão longe, cerca de vinte minutos de caminhada. Mas naquele frio tudo parecia longe. Passamos por ruas estranhas e sinistras. Caso fosse Salvador eu jamais andaria por locais daquele jeito. Muito tenso.

Chegamos a casa dela e jantamos uma comida polaca que não fazia idéia o que era; certamente algo com batata. Um vinho, um papinho, uma noite de amor. Estava tudo muito bom em Łódź, ainda bem que comprei passagens que ficavam em aberto. Eu voltaria para Praga naquele domingo, mas resolvi ficar mais uns dois dias. Ainda estava cansado da primeira viagem e começava a gostar da “garota da internet” mais e mais. Aproveitamos e tiramos algumas fotos para marcar o momento.

Priceless Girl e Belino =)

Os dias se passaram e eu já estava ficando sem roupas. Precisava voltar a Praga para ao menos pegar o resto de minha bagagem. Eu estava tendo um bom momento na Polônia, mas ficar lá com pouca roupa estava se tornando difícil. Prometi a Priceless Girl que voltaria o mais breve possível. A minha ida a Rep. Tcheca tinha também outro propósito. Enquanto estava na Polônia li que a União Européia estava dando apoio financeiro para quem pretendia abrir empresa. Talvez essa fosse uma saída. Assim reabriram-se as esperanças de um dia morar em Praga. Seria uma boa averiguar.

A despedida foi um pouco triste, mas eu voltaria e isso era fato. Talvez em um mês ou algumas semanas. A carinha de choro da loirinha não me deteve. Eu tinha mesmo que ir ou teria que comprar uma porrada de roupas lá na Polônia. Na terça-feira pela manhã, ela me levou a estação e esperou que eu pegasse o trem. Faria o mesmo percurso da primeira viagem. Um beijo de despedida, entrei no trem...o último aceno e a volta para Praga começava.

BR Na Europa!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Łódź - Dia, ops, Noite 1


O primeiro dia, ou melhor, noite, na cidade de Łódź foi legal. Priceless Girl levou-me para  casa dela direto da estação de trem para jantar, e só depois ela me levaria ao albergue o qual eu ficaria.

Eu estava um bagaço. Fedia a cerveja, estava cheio de olheiras, com frio, cansado e com muito, mas muito sono mesmo. Acho que se tivesse ficado mais uma hora dentro do trem, ela teria que me carregar nas costas para chegar ao táxi. Uma viagem de nove horas de duração se estender a dezoito é muita sacanagem. Quase um dia inteiro passando frio naqueles trens foi de mais para mim. Finalmente eu teria uma boa refeição e tomaria um belo banho.

Pegamos o táxi e fomos para casa dela. Eu não faço idéia qual a primeira impressão que ela teve de mim, porque só o fedor poderia acabar com qualquer chance que eu teria. Ela era muito mais bonita pessoalmente do que em fotos e muito simpática também. Fomos conversando no táxi e eu contava porque demorei tanto a chegar.

- Eu não acredito! Tudo isso? – perguntou ela.

Às vezes nem eu mesmo acredito no que aconteceu comigo desde que cheguei a Europa. Muita zica cara. Claro que coisas boas também aconteceram, mas é muito mais fácil contar algum fato estranho de forma interessante do que fatos legais.

Enquanto contava eu dava uma olhadinha na cidade. Como era cinza e sem cor... Coberta de neve e gelo para todo lado. Chegava ser depressivo. Aproximamo-nos da casa dela. Estávamos numa espécie de condomínio próximo ao parque da cidade. Prédios bem antigos. Subimos a escadaria e ela abriu a porta.

- Não repare a bagunça. Como você sabe, mudei-me recentemente e muita coisa ainda precisa ser revista.

Era um apartamento pequeno, mas bem aconchegante. Senti aquele calor saindo de dentro do local... Ahh, era tudo que eu precisava. Entrei pelo corredor, ela mostrou-me a cozinha, o banheiro e a sala. Era isso, agora entendi porque não poderia ficar lá. Teria de dividir a cama, o que não seria uma má idéia, mas seria estranho algo assim logo de cara.

Pedi para tomar um banho antes de jantar e ela me concedeu a honra de usar o banheiro ainda não totalmente reformado. Entrei no banheiro e larguei minhas coisas lá. Ela começava a cozinhar o que seria um macarrão aí. Lembrei-me de uma coisa. Voltei e falei com ela:

- Desculpa, mas esqueci de te pedir uma coisa.

- Precisa de algo, tipo sabão?

- Não, não. Eu sei que essas coisas não se pede mas eu poderia te dar um beijo. Isso me deixaria mais a vontade.

Ela olhou para mim cara com olhos esbugalhados e essa era a minha deixa. Parti pro abraço e fiz meu gol mesmo estando fedorento e um caco. Não teve escapatória. Fui tomar meu banho feliz enquanto ela ainda se recuperava do “Impacto Profundo” do “Beijo do Belino”. Olha, eu não sou malemolente como você pensa, mas eu esperei muito para beijá-la, e quando a vi pela primeira vez ao vivo a emoção foi forte, por isso o beijo. Demorei uns trinta minutos para tirar aquele fedor de cerveja do corpo.

Tivemos uma ótima noite, mas eu precisava ir para o albergue dormir. Caso a mãe dela soubesse que eu estava lá a coisa seria um pouco desagradável.

Pegamos outro táxi e ela me levou para um pequeno lugar que seria perto da casa de sua avó. Lá eu passaria a noite e no dia seguinte a encontraria. Fiz o check-in me joguei na cama e apaguei, eram três da manhã e após  vinho e um ótimo momento com a Priceless Girl, eu precisava colocar minha cabeça no travesseiro. Começava assim meu período na cidade de Łódź.